quinta-feira, 18 de setembro de 2014

A cartomante

Em “A Cartomante”, de Machado de Assis, percebe-se, primeiramente, que o foco narrativo é do narrador-observador onisciente. Pois, a voz do discurso, além de observar o que acontece na trama, sabe sobre os pensamentos, os sentimentos e as angústias das personagens. Isso fica evidenciado a partir dos tipos de discurso presentes no texto. São eles: discurso direto, discurso indireto e discurso indireto livre. Um fragmento que exemplifica tal questão: “Dita assim, pela voz do outro, tinha um tom de mistério e ameaça. Vem, já, já, para quê? Era perto de uma hora da tarde. A comoção crescia de minuto a minuto.” Nesse trecho, percebemos que o narrador conhece os pensamentos de Camilo, que pode ser enfatizado pela frase “Vem, já, já, para quê?”.

O tempo cronológico decorre da ida de Rita à cartomante até o crime ocorrido na casa de Vilela. Mas, ao considerarmos o tempo do discurso há a presença de analepse por parte do narrador-observador onisciente. A voz do discurso conta um pouco a respeito do passado das personagens Camilo, Vilela e Rita.

Os espaços físicos são, principalmente, as casas em que as personagens encontram-se. Em especial, o ar enjoado e sínico presente na residência da cartomante é o que chama mais atenção. A luz ilumina somente ao cliente, como se a mulher não quisesse ser vista. Possivelmente, por não prever o futuro realmente, como era o prometido.

As personagens principais são três: Vilela, Camilo e Rita. Os dois primeiros eram amigos de infância. Camilo não atendeu eficazmente às expectativas profissionais estabelecidas pela família dele. Já, Vilela era um homem de sucesso. Rita apresenta-se como alguém formosa e tonta. A paixão extraconjugal entre Camilo e a esposa do amigo dele, Rita, é o que dá início à narrativa. Entretanto, quem dá ênfase ao sentido do texto é a cartomante. Uma mulher com ar de mistério que diz poder ler o futuro.

Algo muito presente nas obras de Machado de Assis é extremamente contido nesse conto. As aflições da mente humana. A relação extraconjugal, acrescida de suspeitas sobre as informações possuídas pelo marido traído, gera insegurança nos amantes Camilo e Rita. Como não existia nenhuma forma de extrair a verdade de Vilela, eles procuram o auxílio de uma cartomante. Levando em consideração que a obra foi escrita durante o Parnasianismo, o final da história não poderia ser outro. A consulta com a mulher foi uma tentativa de aliviar as aflições psicológicas sofridas pelos amantes. Isso porque, no ano em que o texto foi escrito, em 1869, as narrativas trabalham os aspectos da mente, principalmente Machado de Assis, e não uma vida amorosamente idealizada como era feito na escola literária anterior, o Romantismo. Para quem gosta de realismo, esse livro é uma excelente escolha.

REFERÊNCIAS

ASSIS, Machado de. "A cartomante" in Contos. Ed. Objetivo, São Paulo, 1997.


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